Introdução

Há muito o que ser aprendido. Há muito o que podemos extrair do que vemos, tocamos, ouvimos, e acima de tudo, sentimos. Nossa sabedoria vem dos retalhos que vamos colhendo ao longo de nossa evolução, que os leva a formar a colcha que somos. Esse espaço é para que eu possa compartilhar das luzes que formam o que Eu tenho sido!!!

sexta-feira, 23 de junho de 2017

BRANDOS E PACÍFICOS



A azáfama do dia cedera lugar a terna e suave tranqüilidade. As atividades fatigantes alongaram-se até as primeiras horas da noite, que se recamara de astros alvinitentes. Os últimos corações atendidos, à margem do lago, após a formosa pregação do entardecer, demandaram os seus sítios facultando que eles, a seu turno, volvessem à casa de Simão.

Depois do repasto simples, o Mestre acercou-se da praia em companhia do apóstolo afeiçoado e, porque o percebesse tristonho, interrogou com amabilidade:

- Que aflição tisna a serenidade da tua face, Simão, encobrindo-a com o véu de singular tristeza?

Havia na indagação carinhoso interesse e bondade indisfarçável.

Convidado diretamente à conversação renovadora, o velho pescador contestou com expressiva entonação de voz, na qual se destacava a modulação da amargura:

- Cansaço, Senhor. Sinto-me muitas vezes descoroçoado, no ministério abraçado... Não fosse por ti...

Não conseguiu concluir a frase. As lágrimas represadas irromperam afogando o trabalhador devotado em penosa agonia. E como o silêncio se fizesse espontâneo, ante o oscular da noite que os acalentava em festival de esperança, o companheiro, sentindo-se compreendido e, passado o volume inicial da emotividade descontrolada, prosseguiu:

- Não ignoro a própria inferioridade e sei que teu amor me convocou à boa nova a fim de que me renovasse para a luz e pudesse crescer na direção do amor de nosso Pai. Todavia, deparo-me a cada instante com dificuldades que me dilaceram os sentimentos, inquietando-me a alma.

Ante o olhar dúlcido e interrogativo do Amigo discreto adiu:

- É verdade que devemos perdoar todas as ofensas, no entanto, como suportar a agressividade que nos fere, quando pretende admoestar e que humilha, quando promete ajudar?

- Guardando a paz do coração - redarguiu o divino Benfeitor.

- Todavia - revidou o discípulo sensibilizado -, como conservar a paz, estando sitiado pela hipocrisia de uns, pela suspeita pertinaz de outros, sob o olhar severo das pessoas que sabemos em pior situação do que a nossa?


- Mantendo a brandura no julgamento - respondeu o Senhor.

- Concordo que a mansuetude é medicamento eficaz - redarguiu Pedro -, não obstante, não seria de esperarmos que os companheiros afeiçoados à luz nova também a exercitassem por sua vez? Quando a dúvida sobre nossas atitudes parte de estranhos, quando a suspeição vem de fora da grei, quando a agressividade nos chega dos inimigos da fé, podemos manter a brandura e a paz íntimas. Entrementes, sofrer as dificuldades apresentadas por aqueles que nos dizem amar, tomando parte no banquete do Evangelho, convém consideremos ser muito mais difícil e grave o cometimento...

Percebendo a angústia que se apossara do servo querido, o Mestre, paciente e judicioso, explicou:

- Antes de esperarmos atitudes salutares do próximo, cabe-nos o dever de oferecê-las. Porque alguém seja enfermo pertinaz e recalcitrante no erro, impedindo que a luz renovadora do bem o penetre e sare, não nos podemos permitir o seu contágio danoso, nem nos é lícito cercear-lhe a oportunidade de buscar a saúde. Certamente, dói-nos mais a impiedade de julgamento que parte do amigo e fere mais a descortesia de quem nos é conhecido. Ignoramos, porém, o seu grau de padecimento interior e a sua situação tormentosa. Nem todos os que nos abraçam fazem-no por amor, bem o sabemos... Há os que, incapazes de amar, duvidam do amor do próximo; os que mantendo vida e atitudes dúbias descreem da retidão alheia; os que tropeçando e tombando descuram de melhorar a estrada para os que vêm atrás... Necessário compreendê-los todos e amá-los, sem exigir que sejam melhores ou piores, convivendo sob o bombardeio do azedume deles sem nos tornar-nos displicentes para com os nossos deveres ou amargos em relação aos outros...

- Ante a impossibilidade de suportá-los - sindicou o pescador com sinceridade -, sem correr o perigo de os detestar, não seria melhor que os evitássemos, distanciando-nos deles?

- Não, Simão - esclareceu Jesus. - Deixar o enfermo entregue a si mesmo será condená-lo à morte; abandonar o revel significa torná-lo pior... Antes de outra atitude é necessário que nos pacifiquemos intimamente, a fim de que a brandura se exteriorize do nosso coração em forma de bênção. Na legislação da montanha foi estabelecido que são bem-aventurados os brandos e pacíficos... A bem-aventurança é o galardão maior. Para consegui-lo é indispensável o sacrifício, a renúncia, a vitória sobre o amor-próprio, o triunfo sobre as paixões. Amar aos bons é dever de retribuição, mas servir e amar aos que nos menosprezam e de nós duvidam é caridade para eles e felicidade para nós próprios.

Como o céu continuasse em cintilações incomparáveis e o canto do mar embalasse a noite em triunfo, o Mestre silenciou como a aspirar as blandícias da Natureza.

O discípulo, desanuviado e confiante, com os olhos em fulgurações, pensando nos júbilos futuros do Evangelho, repetiu quase num monólogo, recordando o Sermão da Montanha:

- Bem-aventurados os que são brandos, porque possuirão a Terra. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.

E deixou-se penetrar pela tranqüilidade, em clima de elevadas reflexões.

Divaldo Pereira Franco pelo espírito Amélia Rodrigues recebido por e-mail de oespiritismo@oespiritismo.com.br





quarta-feira, 21 de junho de 2017

MANSIDÃO E PIEDADE



Se caminhas sob chuvas de impropérios e maldições, cultiva a mansidão e exercita a piedade.

Se atravessas provas rudes, assoalhadas por aflições contínuas, guarda-te na mansidão e desenvolve a piedade.

Se sofres agressões prolongadas, que se não justificam, permanece com mansidão e desenvolve a piedade.

Se tombas nas ciladas bem urdidas, propostas por adversários encarnados ou não, mantém-te em mansidão e esparze a piedade.

Se te açodam circunstâncias rudes e tudo parece conspirar contra tuas lutas de redenção, não te descures da mansidão nem da piedade.

Aclamado pelo entusiasmo passageiro de amigos ou admiradores, sustenta a mansidão e insiste na piedade.

Guindado a posições de relevo transitório e requestado pelo momento de ilusão, não te afaste da mansidão da piedade.

Carregado de êxitos terrenos e laureado por enganosas situações, envolve-te na mansidão e não te distancies da piedade.

Recomendado pelas pessoas proeminentes ou procurado pelos triunfos humanos, persevera com mansidão e trabalha com piedade.

Mansidão e piedade em qualquer circunstância, sempre.

A mansidão coloca-te interiormente indene à agressividade dos que se comprazem no mal e a piedade envolve-os em vibrações de amor.

A mansidão faz-te compreender que necessitas de crescimento espiritual e, por enquanto, a dor ainda se torna instrumento educativo. A piedade evita que mágoas ou sequelas de aborrecimento tisnem os teus ideais de enobrecimento.

A mansidão acalma; a piedade socorre.

Com mansidão seguirás a trilha da humildade e com a piedade prosseguirás retribuindo com o bem a todo e qualquer mal.

A mansidão identifica o cristão e a piedade fala das suas conquistas interiores.

"Bem-aventurados os mansos e pacificadores - ensinou Jesus - porque eles herdarão a Terra"... feliz do continente da alma imortal.

Divaldo Pereira Franco pelo espírito Joanna D'Ângelis no livro "Otimismo".



terça-feira, 20 de junho de 2017

GUARDEMOS SAÚDE MENTAL

“Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da Terra.” — Paulo. (COLOSSENSES, CAPÍTULO 3, VERSÍCULO 2.)
O Cristianismo primitivo não desconhecia a necessidade da mente sã e iluminada de aspirações superiores, na vida daqueles que abraçam no Evangelho a renovação substancial.

O trabalho de notáveis pensadores de hoje encontra raízes mais longe. Sabem agora, os que lidam com os fenômenos mediúnicos, que a morte da carne não impõe as delícias celestiais.

O homem encontra-se, além do túmulo, com as virtudes e defeitos, ideais e vícios a que se consagrava no corpo.

O criminoso imanta-se ao círculo dos próprios delitos, quando se não algema aos parceiros na falta cometida.

O avarento está preso aos bens supérfluos que abusivamente amontoou.

O vaidoso permanece ligado aos títulos transitórios.

O alcoólatra ronda as possibilidades de satisfazer a sede que lhe domina os centros de força.

Quem se apaixona pelas organizações caprichosas do “eu”, gasta longos dias para desfazer as teias de ilusão em que se lhe segrega a personalidade.

O programa antecede o serviço.

O projeto traça a realização.

O pensamento é energia irradiante. Espraiemo-lo na Terra e prender-nos-emos, naturalmente, ao chão. Elevemo-lo para o Alto e conquistaremos a espiritualidade sublime.

Nosso espírito residirá onde projetarmos nossos pensamentos, alicerces vivos do bem e do mal. Por isto mesmo, dizia Paulo, sabiamente: — “Pensai nas coisas que são de cima.”

Francisco Cândido Xavier pelo espírito Emmanuel no livro "Pão Nosso".


Para fazer o download da apresentação utilizada para reflexão deste texto no Centro Espírita Casimiro Cunha favor clicar A.Q.U.I.

Para escutar a narração do texto utilizar o player abaixo: 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

AUTO-OBSESSÃO



Cumpre, todavia, se não atribuam à ação direta dos Espíritos todas as contrariedades que se possam experimentar, as quais, não raro, decorrem da incúria, ou da imprevidência. Um agricultor nos escreveu certo dia que, havia doze anos, toda sorte de infelicidades lhe acontecia, relativamente ao seu gado; ora eram as vacas que morriam, ou deixavam
de dar leite, ora eram os cavalos, os carneiros, ou os porcos que sucumbiam. Fez muitas novenas, que em nada remediaram o mal, do mesmo modo que nada obteve com as missas que mandou celebrar, nem com os exorcismos que mandou praticar. Persuadiu-se, então, de acordo com o preconceito dos campos, de que lhe haviam enfeitiçado os animais. Supondo-nos, sem dúvida, dotados de um poder esconjurador maior do que o do cura da sua aldeia, pediu o nosso parecer. Foi a seguinte a resposta que obtivemos: "A mortalidade ou as enfermidades do gado desse homem provêm de que seus currais estão infectados e ele não os repara, porque custa dinheiro."


O Livro dos Médiuns – 2ª parte – Capítulo XXIII – Item 253.


***


A influência obsessiva da alma sobre si mesma denomina-se auto-obsessão. A criatura passa a ser "a opressora de si própria"; há um verdadeiro "campo de batalha" em seu mundo interior, provocando alterações de comportamento físico, emocional e mental. Ao pensar, através de seu centro mental, ela irradia vibrações ou ondas que se propagam ao seu derredor. A mente emite e, ao mesmo tempo, capta qualquer onda energética que a atinja, desde que esteja vibrando na mesma sintonia espiritual de outra fonte emissora. Cada pessoa plasma os reflexos de si mesma e, por onde passa, entra em comunhão com a matéria mental alheia, exteriorizando o seu melhor lado, ou mesmo, criando perturbação ou desajustamento. Em síntese: somos nós mesmos que ligamos ou desligamos o fio condutor de nossos sentimentos e pensamentos.

A projeção mental se vincula, se perpetua e se justapõe, ou se desata, se distancia e se inibe, dependendo da força da determinação e do grau de conhecimento, isto é, do potencial evolutivo do indivíduo. Dessa forma, as almas em desarmonia íntima são semelhantes a um ímã: atraem para si forças destrutivas que lhes assinalam o âmago, projetando teias enfermiças através de sua atmosfera psíquica ou de sua aura doentia. Geralmente, a auto-obsessão vem acompanhada de sentimentos de culpa, de autocensura, de recriminação, de complexos de inferioridade e de irresponsabilidade pelo próprio destino. Esses sentimentos desagradáveis resultam, incondicionalmente, de idéias ou crenças inadequadas e inconscientes que distorcem o real significado de bondade, de pureza, de honestidade, de castidade, de retidão, de evolução, de religiosidade e de outros tantos conceitos ou definições.

A criatura passa a ser "vitima do destino" e, tal são a apatia e passividade que a envolve, que ela se julga imperfeita e impotente, ignorando sua possibilidade de mudar ou de utilizar seu livre-arbítrio. Os auto obsidiados sentem-se tratados de forma injusta pela vida, ressaltando negativamente o modo de ser das pessoas, das coisas e de si mesmos. São facilmente influenciados e se asfixiam constantemente com as "sujeiras do mundo". Por terem uma aura de negatividade, atraem "larvas astrais" que desarranjam o reino interior.

Aquele que se encontra em auto-obsessão experimenta um modo de viver complicado ou embaraçado. Tem dificuldade de analisar, discernir e sentir a vida tal como ela é, pois lhe falta a "visão sistêmica" da existência humana. Ele carece da síntese das experiências vividas, pois seu pensamento analítico fica obstruído. Quando nos conscientizamos de nossos processos mentais, passamos a clarear nosso mundo interior e a administrar nossas atitudes psíquicas. A partir disso, resgatamos o "senso pluri dimensional" de almas imortais.

A faculdade de raciocinar faz com que percebamos a proporção de nossas dificuldades, a dimensão e extensão de nossos problemas e conflitos existenciais. Por isso, é importante tomar consciência do quanto ignoramos a vida dentro e fora de nós. Sobretudo quando o fato de ignorar-nos leva à humildade, por admitirmos o quanto não sabemos, como também nos incentiva na busca do aprendizado e da sabedoria. Platão, filósofo grego, discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles, escreveu: "As pessoas ignorantes não procuram sabedoria. O mal da ignorância está no fato de que aqueles que não são bons nem sábios estão, apesar disso, satisfeitos consigo mesmos. Não desejam aquilo de que não sentem falta".

Os dicionários definem auto-ilusão como um engano dos sentidos ou da mente, que faz com que interpretemos de forma errada uma atitude, um fato ou uma sensação, tomando-os por coisas completamente diferentes. O estudo de nós mesmos nos ajuda a escapar do intrincado labirinto no qual vivemos e nos permite desenvolver nossas habilidades adormecidas, facilitando-nos, assim, entrar em contato com a sabedoria da Vida Providencial, que tudo governa através de suas leis naturais.

A auto-obsessão está vinculada aos processos de elaboração do mundo intimo, podendo acarretar sérios distúrbios no corpo astral e, consequentemente, na roupagem física. Quanto mais ignorarmos o processo das leis divinas, cultivando mágoa, culpa, crítica, baixa estima, ilusão, dependência e outras tantas "dores da alma", mais estaremos semeando farpas magnéticas no campo emotivo e intoxicando, por conta própria, a nossa atividade mental.

Para nos libertarmos das prisões da auto-obsessão, é necessário exercitarmos a auto-observação e aprendermos a testemunhar nossos próprios pensamentos, emoções, atos e atitudes. Mais ainda, é preciso desenvolvermos uma visão interior que não acusa  nem julga, mas unicamente observa, de maneira imparcial e objetiva, permitindo-nos conhecer a verdade tal como é. Além disso, é imprescindível aquietarmo-nos numa aceitação serena e honesta, admitindo o que somos e o que sentimos, sem jamais nos condenarmos ou punirmos. A auto-aceitação nos facilita a conscientização de nossos desacertos e de nossa ignorância e, se essa conscientização for progressiva e constante, aí descobriremos dentro de nós as fontes que nos perturbam a existência.

Assumindo a responsabilidade total por nosso desequilíbrio, não passamos mais a "atribuir à ação direta dos Espíritos todas as nossas contrariedades, que, em geral, são consequência da nossa própria incúria ou imprevidência", nem tampouco a lançar culpa nos outros – na família, nas pessoas com quem convivemos, nas existências do passado ou nas regras injustas da sociedade. A rigor, aqui está o início da cura de toda auto-obsessão.

Francisco do Espírito Santo Neto pelo espírito Hammed no livro "Imensidão dos Sentidos". 


terça-feira, 6 de junho de 2017

TRATAMENTO DE OBSESSÕES


“E até das cidades circunvizinhas concorria muita gente a Jerusalém, conduzindo enfermos e atormentados de espíritos imundos, os quais todos eram curados.” 
(ATOS, CAPÍTULO 5, VERSÍCULO 16.)
A igreja cristã dos primeiros séculos não estagnava as idéias redentoras do Cristo em prataria e resplendores do culto externo.

Era viva, cheia de apelos e respostas.

Semelhante a ela, o Espiritismo evangélico abre hoje as suas portas benfeitoras a quem sofre e procura caminho salvador.

É curioso notar que o trabalho enorme dos espiritistas de agora, no socorro às obsessões complexas e dolorosas, era da intimidade dos apóstolos. Eles doutrinavam os espíritos perturbados, renovando pelo exemplo e pelo ensino, não só os desencarnados sofredores, mas também os médiuns enfermos que lhes padeciam as influências.

Desde as primeiras horas de tarefa doutrinária sabe a alma do Cristianismo que seres invisíveis, menos equilibrados, vagueiam no mundo, produzindo chagas psíquicas naqueles que lhes recebem a atuação, e não desconhece as exigências do trabalho de conversão e elevação que lhe cabe realizar; os dogmas religiosos, porém, impediram-lhe o serviço eficiente, há muitos séculos.

Em plena atualidade, todavia, ressurgem os quadros primitivos da Boa Nova.

Entidades espirituais ignorantes e infortunadas adquirem nova luz e roteiro novo, nas casas de amor que o Espiritismo cristão institui, vencendo preconceitos e percalços de vulto.

O tratamento de obsessões, portanto, não é trabalho excêntrico, em nossos círculos de fé renovadora. Constitui simplesmente a continuidade do esforço de salvação aos transviados de todos os matizes, começado nas luminosas mãos de Jesus.

Francisco Cândido Xavier pelo espírito Emmanuel no livro "Pão Nosso".


Para fazer o download da apresentação utilizada no projeto "Estudo de Obras de Emmanuel" clicar A.Q.U.I.

Para ouvir a narração do texto utilizar o player abaixo:


domingo, 4 de junho de 2017

ESCOLHA DAS PROVAS



Questão 266 de "O Livro dos Espíritos":

- Não parece natural que se escolham as provas menos dolorosas?

“Pode parecer-vos a vós; ao Espírito, não. Logo que este se desliga da matéria, cessa toda ilusão e outra passa a ser a sua maneira de pensar.”

Comentário de Allan Kardec:

Sob a influência das ideias carnais, o homem, na Terra, só vê das provas o lado penoso. Tal a razão de lhe parecer natural sejam escolhidas as que, do seu ponto de vista, podem coexistir com os gozos materiais. Na vida espiritual, porém, compara esses gozos fugazes e grosseiros com a inalterável felicidade que lhe é dado entrever e desde logo nenhuma impressão mais lhe causam os passageiros sofrimentos terrenos. Assim, pois, o Espírito pode escolher prova muito rude e, conseguintemente, uma angustiada existência, na esperança de alcançar depressa um estado melhor, como o doente escolhe muitas vezes o remédio mais desagradável para se curar de pronto. Aquele que intenta ligar seu nome à descoberta de uma região desconhecida não procura trilhar estrada florida. Conhece os perigos a que se arrisca, mas também sabe que o espera a glória, se lograr bom êxito.

A doutrina da liberdade que temos de escolher as nossas existências e as provas que devamos sofrer deixa de parecer singular, desde que se atenda a que os Espíritos, uma vez desprendidos da matéria, apreciam as coisas de modo diverso do nosso. Divisam a meta, que bem diferente é para eles dos gozos fugitivos do mundo. Após cada existência, veem o passo que deram e compreendem o que ainda lhes falta em pureza para atingirem aquela meta. Daí o se submeterem voluntariamente a todas as vicissitudes da vida corpórea, solicitando as que possam fazer que a alcancem mais depressa. Não há, pois, motivo de espanto no fato de o Espírito não preferir a existência mais suave. Não lhe é possível, no estado de imperfeição em que se encontra, gozar de uma vida isenta de amarguras. Ele o percebe e, precisamente para chegar a fluí-la, é que trata de se melhorar.

Não vemos, aliás, todos os dias, exemplos de escolhas tais? Que faz o homem que passa uma parte de sua vida a trabalhar sem trégua, nem descanso, para reunir haveres que lhe assegurem o bem-estar, senão desempenhar uma tarefa que a si mesmo se impôs, tendo em vista melhor futuro? O militar que se oferece para uma perigosa missão, o navegante que afronta não menores perigos, por amor da Ciência ou no seu próprio interesse, que fazem, também eles, senão sujeitar-se a provas voluntárias, de que lhes advirão honras e proveito, se não sucumbirem? A que se não submete ou expõe o homem pelo seu interesse ou pela sua glória? E os concursos não são também todos provas voluntárias a que os concorrentes se sujeitam, com o fito de avançarem na carreira que escolheram? Ninguém galga qualquer posição nas ciências, nas artes, na indústria, senão passando pela série das posições inferiores, que são outras tantas provas. A vida humana é, pois, cópia da vida espiritual; nela se nos deparam em ponto pequeno todas as peripécias da outra. Ora, se na vida terrena muitas vezes escolhemos duras provas, visando posição mais elevada, por que não haveria o Espírito, que enxerga mais longe que o corpo e para quem a vida corporal é apenas incidente de curta duração, de escolher uma existência árdua e laboriosa, desde que o conduza à felicidade eterna? Os que dizem que pedirão para ser príncipes ou milionários, uma vez que ao homem é que caiba escolher a sua existência, se assemelham aos míopes, que apenas veem aquilo em que tocam, ou a meninos gulosos, que, a quem os interroga sobre isso, respondem que desejam ser pasteleiros ou doceiros.

O viajante que atravessa profundo vale ensombrado por espesso nevoeiro não logra apanhar com a vista a extensão da estrada por onde vai, nem os seus pontos extremos. Chegando, porém, ao cume da montanha, abrange com o olhar quanto percorreu do caminho e quanto lhe resta dele a percorrer. Divisa-lhe o termo, vê os obstáculos que ainda terá de transpor e combina então os meios mais seguros de atingi-lo. O Espírito encarnado é qual viajante no sopé da montanha. Desenleado dos liames terrenais, sua visão tudo domina, como a daquele que subiu à crista da serrania. Para o viajor, o objetivo é o repouso após a fadiga; para o Espírito, a felicidade suprema, após as tribulações e as provas.

Dizem todos os Espíritos que, na erraticidade, eles se aplicam a pesquisar, estudar, observar, a fim de fazerem a sua escolha. Na vida corporal não se nos oferece um exemplo deste fato? Não levamos, frequentemente, anos a procurar a carreira pela qual afinal nos decidimos, certos de ser a mais apropriada a nos facilitar o caminho da vida? Se numa o nosso intento se malogra, recorremos a outra. Cada uma das que abraçamos representa uma fase, um período da vida. Não nos ocupamos cada dia em cogitar do que faremos no dia seguinte? Ora, que são, para o Espírito, as diversas existências corporais, senão fases, períodos, dias da sua vida espírita, que é, como sabemos, a vida normal, visto que a outra é transitória, passageira?

sábado, 3 de junho de 2017

DO QUE SÃO FEITOS OS DIREITOS?



Publicado originalmente A.Q.U.I. 

Sabem do que são feitos os direitos, meus jovens? Sentem o seu cheiro? Os direitos são feitos de suor, de sangue, de carne humana apodrecida nos campos de batalha, queimada em fogueiras! Quando abro a Constituição no artigo quinto, além dos signos, dos enunciados vertidos em linguagem jurídica, sinto cheiro de sangue velho! Vejo cabeças rolando de guilhotinas, jovens mutilados, mulheres ardendo nas chamas das fogueiras! Ouço o grito enlouquecido dos empalados.

Deparo-me com crianças famintas, enrijecidas por invernos rigorosos, falecidas às portas das fábricas com os estômagos vazios! Sufoco-me nas chaminés dos campos de concentração, expelindo cinzas humanas! Vejo africanos convulsionando nos porões dos navios negreiros. Ouço o gemido das mulheres indígenas violentadas. Os direitos são feitos de fluido vital! Pra se fazer o direito mais elementar, a liberdade, gastou-se séculos e milhares de vidas foram tragadas, foram moídas na máquina de se fazer direitos, a revolução!

Tu achavas que os direitos foram feitos pelos janotas que têm assento nos parlamentos e tribunais? Engana-te! O direito é feito com a carne do povo! Quando se revoga um direito, desperdiça-se milhares de vidas ... Os governantes que usurpam direitos, como abutres, alimentam-se dos restos mortais de todos aqueles que morreram para se converterem em direitos! Quando se concretiza um direito, meus jovens, eterniza-se essas milhares vidas! Quando concretizamos direitos, damos um sentido à tragédia humana e à nossa própria existência! O direito e a arte são as únicas evidências de que a odisseia terrena teve algum significado!

Raquel Domingues do Amaral - Juíza da 1ª Vara Federal de Dourados/MS


sexta-feira, 2 de junho de 2017

SENSAÇÕES ALÉM-TÚMULO



Não olvides que a morte do corpo denso reintegrar-te-á no patrimônio de emoções que amealhaste a benefício ou em desfavor de ti mesmo.

Agora que te confias à multiplicidade de idéias e sonhos, anseios e impressões, no campo da própria alma, a dividir-se através dos sentidos que te compõem o mundo sensorial, és qual fonte de vida a espraiar-se no solo da experiência; entretanto, amanhã, serás a síntese de ti próprio, na justa aferição dos valores que a Providência te conferiu.

Se o Bem te preside a jornada, decerto, sob o Amparo da Lei, receberás do Senhor novos mandatos de serviço em consonância com os teus ideais, porque no culto do dever retamente cumprido, todas as criaturas ascendem verticalmente a novos quadros evolutivos.

Mas, se encarceras o espírito nos enganos da sombra, não esperes que a ausência da teia física se te faça, mais tarde, equilíbrio e libertação, de vez que a Lei, ciosa de seus princípios, guardar-te-á nos resultados da tuas próprias ações, compelindo-te a restaurar os fios do destino, associando-se aos propósitos do Pai Excelso.

É por isso que as sensações além-túmulo representam o retrato positivo das imagens que criamos no laboratório da existência física, determinando, segundo a lição do Mestre, que o fruto de nossos desejos esteja à nossa espera, onde guardarmos o coração.

Não te esqueças de que a alegria do Céu e os tormentos do inferno começam, invariavelmente, em nós próprios, plasmando em derredor de nós mesmos o flagelo das paixões destruidoras que houvermos abraçado no convívio deliberado da sombra, ou no Brilho do Bem, a que tivemos empenhados as nossas melhores forças, no sacrifício incessante pela Vitória da Luz.

Francisco Cândido Xavier pelo Espírito Emmanuel 
no Livro "Sentinelas da Luz".




A VIDA ESPIRITUAL



(Grupo Lampérière, 9 de janeiro de 1867 - Médium, Sr. Delanne)

Aqui estou, feliz por vir saudar-vos, encorajar-vos e vos dizer:

Irmãos, Deus vos cumula de seus benefícios, prometendo-vos nestes tempos de incredulidade, respirar a plenos pulmões o ar da vida espiritual que sopra com vigor através das massas compactas.

Crede em vosso antigo associado, crede em vosso amigo íntimo, vosso irmão pelo coração, pelo pensamento e pela fé; crede nas verdades ensinadas. Elas são tão seguras quanto lógicas; crede em mim que, há alguns dias, me contentava, como vós, em crer e esperar, ao passo que hoje a doce ficção é para mim uma imensa e profunda verdade. Eu toco, eu vejo, eu sigo, eu possuo; então, isso existe. Analiso minhas impressões de hoje e as comparo com as ainda frescas, da véspera.

Não só me é permitido comparar, sintetizar, pesar minhas ações, meus pensamentos, minhas reflexões, julgá-las pelo critério do bom-senso, mas eu as vejo, eu as sinto, eu sou testemunha ocular, sou a coisa realizada. Não são mais consoladoras hipóteses, sonhos dourados, esperanças, é mais que uma certeza moral: é o fato real, palpável, o fato material que tocamos, que nos toma sob sua forma tangível, e nos diz: isto é.

Aqui tudo respira calma, sabedoria, felicidade; tudo é harmonia; tudo diz: Eis o suprassumo do senso íntimo; não mais quimeras, falsas alegrias, não mais temores pueris, não mais falsa vergonha, não mais dúvidas, não mais angústias, não mais perjúrios, nada desse cortejo vil de fabulosas dores, de erros grosseiros, como se vê diariamente na Terra.

Aqui somos penetrados de uma quietude inefável; admiramos, oramos, adoramos, rendemos ações de graças ao sublime autor de tantos benefícios; estudamos e entrevemos todas as potências infinitas; vemos o movimento das leis que regem a Natureza. Cada obra tem um objetivo que conduz ao amor, diapasão da harmonia geral. Vemos o progresso presidir a todas as transformações físicas e morais, porque o progresso é infinito como Deus que o criou. Tudo é compreensível; tudo é nítido, preciso; nada de abstrações, porque tocamos com o dedo e a razão o porquê das coisas humanas. As legiões espirituais adiantadas só têm um objetivo, o de se tornarem úteis a seus irmãos atrasados, para elevá-los para elas.

Trabalhai, pois, sem cessar, conforme vossas forças, meus bons irmãos, para vos melhorar e serdes úteis aos vossos semelhantes; não só fareis a doutrina, que é vossa alegria, dar um passo, mas tereis contribuído poderosamente para o progresso do vosso planeta; a exemplo do grande legislador cristão, sereis homens, homens de amor, e concorrereis para implantar o reino de Deus sobre a Terra.

Este que é ainda e mais que nunca vosso condiscípulo.

Leclerc

*** 

OBSERVAÇÃO: Com efeito, tal ó o caráter da vida espiritual; mas seria um erro crer que basta ser Espírito para encará-la deste ponto de vista. Dá-se com o mundo espiritual como com o mundo corporal: para apreciar as coisas de uma ordem elevada, é necessário um desenvolvimento intelectual e moral que não é peculiar senão a Espíritos adiantados; os Espíritos atrasados ignoram o que se passa nas altas esferas espirituais, como o eram na Terra em relação ao que constitui a admiração dos homens esclarecidos, porque não podem compreendê-lo. Não podendo seu pensamento, circunscrito num horizonte limitado, abarcar o infinito, eles não podem ter os prazeres resultantes do alargamento da esfera de atividade espiritual. A soma de felicidades, no mundo dos Espíritos, ali é, portanto, por força das coisas, proporcional ao desenvolvimento do senso moral, de onde resulta que trabalhando aqui em baixo por nosso melhoramento e nossa instrução, aumentamos as fontes de felicidade para a vida futura. Para o materialista, o trabalho só tem um resultado limitado à vida presente, que pode acabar de um instante para outro. O espírita, ao contrário, sabe que nada do que ele adquire, mesmo à última hora, fica perdido, e que todo progresso realizado lhe será proveitoso.

As profundas considerações de nosso antigo colega, Sr. Leclerc, sobre a vida espiritual, são, pois, uma prova de seu adiantamento na hierarquia dos Espíritos, pelo que o felicitamos.

Allan Kardec na Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos de maio de 1867 na seção "Dissertações espíritas".

quinta-feira, 1 de junho de 2017

DISCURSO DE MARK ZUCKERBERG PARA FORMANDOS DE HARVARD 2017


Reitor Faust, Conselho de Curadores, professores, ex-alunos, amigos, pais orgulhosos, membros do conselho administrativo e graduados da melhor universidade do mundo, tenho a honra de estar com vocês hoje porque, convenhamos, vocês obtiveram algo que eu nunca consegui. Se eu conseguir terminar este discurso, será a primeira vez que eu realmente conseguirei terminar algo em Harvard. Parabéns, Turma de 2017!

Sou um orador improvável, não só porque eu abandonei meu curso, como também porque pertencemos tecnicamente à mesma geração. Nós andamos por esse pátio com uma diferença inferior a uma década, estudamos as mesmas ideias e dormimos nas mesmas aulas de Ec10. Talvez tenhamos optado por caminhos diferentes para chegarmos até aqui, especialmente se vocês tiverem feito todo o percurso a partir do Quad, mas hoje quero compartilhar o que aprendi sobre a nossa geração e sobre o mundo que estamos construindo juntos.

Mas primeiro, os últimos dias me trouxeram muitas lembranças boas.

Quantos de vocês se lembram exatamente daquilo que estavam fazendo quando receberam o email dizendo que foram aceitos em Harvard? Eu estava jogando Civilization e corri escada abaixo, encontrei meu pai e, por algum motivo, a reação dele foi me gravar em vídeo abrindo o email. Aquele poderia ter sido um vídeo muito triste. Eu juro que ser aceito em Harvard ainda é a coisa que mais orgulha meus pais. 

E qual foi a sua primeira aula em Harvard? A minha foi Ciência da Computação 121, com o incrível Harry Lewis. Eu estava atrasado, e portanto vesti uma camiseta rapidamente e não percebi que ela estava de trás para a frente e do avesso, com a etiqueta para fora na parte da frente. Eu não conseguia entender por que ninguém falava comigo, exceto um cara, KX Jin, que não ligou para isso. Nós decidimos resolver nossos problemas juntos, e agora ele dirige uma grande parte do Facebook. E isso, Turma de 2017, mostra por que vocês devem ser simpáticos com as pessoas.

Mas a minha melhor lembrança de Harvard foi ter encontrado a Priscilla. Eu tinha acabado de lançar o site de brincadeira Facemash, e o conselho administrativo quis “falar comigo”. Todos pensavam que eu seria expulso. Meus pais vieram me ajudar a fazer as malas. Meu amigos fizeram uma festa de despedida para mim. A sorte é que a Priscilla foi à festa com uma amiga. Nós nos encontramos na fila do banheiro no Pfoho Belltower, e em uma frase que deve ter sido uma das mais românticas de todos os tempos, eu disse: “Serei expulso daqui a três dias, então precisamos sair em um encontro o mais rápido possível.”

Aliás, qualquer um de vocês que estão se graduando pode usar essa frase.

No fim não fui expulso, eu mesmo saí. Priscilla e eu começamos a namorar. Aquele filme fez parecer que o Facemash foi muito importante para a criação do Facebook. Não foi. Mas sem o Facemash eu nunca teria me encontrado com a Priscilla, e ela é a pessoa mais importante da minha vida, então posso dizer que foi o que eu fiz de mais importante enquanto estive aqui.

Nós todos iniciamos longas amizades aqui, alguns de nós até mesmo famílias. É por isso que tenho uma enorme gratidão por este lugar. Obrigado, Harvard.

Hoje quero falar sobre propósito. Mas eu não estou aqui para dar a vocês o princípio padrão sobre como encontrar seus propósitos. Nós somos da Geração Y. Tentaremos fazer isso instintivamente. Em vez disso, estou aqui para dizer a vocês que encontrar seus propósitos não é suficiente. O desafio da nossa geração é criar um mundo onde todos tenham um senso de propósito.

Uma das minhas histórias favoritas é quando John F. Kennedy visitou o centro espacial da NASA e viu um zelador com uma vassoura, e perguntou o que ele estava fazendo. O zelador respondeu: “Sr. Presidente, estou ajudando a enviar um homem à lua.”

O propósito é aquele sentido de que fazemos parte de algo superior a nós mesmos, que somos necessários, que temos algo melhor no futuro pelo qual devemos trabalhar. O propósito é o que cria a verdadeira felicidade.

Vocês estão se graduando em um momento em que isso é particularmente importante. Quando nossos pais se formaram, o propósito vinha de maneira confiável do emprego, da igreja, da comunidade. Mas agora, a tecnologia e a automação estão eliminando muitos trabalhos. A adesão às comunidades está em declínio. Muitas pessoas se sentem desconectadas e deprimidas, e estão tentando preencher um vazio.
Ao viajar pelo mundo, encontrei crianças em reformatórios e pessoas viciadas em opiáceos, que me disseram que suas vidas poderiam ter sido diferentes se elas tivessem tido algo para fazer, um programa pós-escolar ou algum lugar para ir. Encontrei-me com operários que sabiam que seus antigos empregos não existiam mais e que estavam tentando encontrar seus lugares.

Para o avanço da nossa sociedade, temos um desafio geracional: não só criar novos empregos, como também criar um senso de propósito renovado.

Lembro-me da noite em que lancei o Facebook, em meu pequeno dormitório em Kirkland House. Eu fui ao Noch’s com o meu amigo KX. Lembro-me de ter dito a ele que estava entusiasmado para conectar a comunidade de Harvard, mas que algum dia alguém conectaria o mundo inteiro.

Acontece que nunca pensei que esse alguém poderíamos ser nós. Nós éramos apenas estudantes universitários. Não sabíamos nada sobre aquilo. Havia todas aquelas imensas empresas de tecnologia com recursos. Eu simplesmente presumi que alguma delas faria isso. Mas uma ideia era muito clara para nós: que todas as pessoas querem se conectar umas às outras. Então continuamos avançando, dia após dia.

Eu sei que muitos de vocês terão suas próprias histórias como essa. Uma mudança no mundo que parece tão clara que você tem certeza de que outra pessoa fará aquilo. Mas ela não vai fazer isso. Você vai.

Mas não é suficiente que você tenha um propósito. Você tem de criar um senso de propósito para as outras pessoas.

Eu descobri isso da forma mais difícil. Minha esperança não era de criar uma empresa, mas de criar um impacto. E, à medida que as pessoas começaram a se juntar a nós, eu simplesmente presumi que elas também estavam interessadas no mesmo propósito, então eu nunca expliquei o que esperava que fosse criado.

Depois de alguns anos, algumas grandes empresas quiseram comprar a nossa empresa. Eu não queria vender. Eu queria ver se podíamos conectar mais pessoas. Estávamos criando o primeiro Feed de Notícias, e pensei que, se conseguíssemos lançar isso, ele poderia mudar a forma de obtermos informações sobre o mundo.

Quase todos os outros queriam vender. Sem um senso de propósito maior, isso era a realização do sonho de qualquer jovem empresa. Isso dividiu a nossa empresa. Após uma discussão tensa, um conselheiro me disse que se eu não concordasse em vender, me arrependeria dessa decisão pelo resto da vida. As relações estavam tão desgastadas que após cerca de um ano, todos os membros da equipe de gerência tinham ido embora.

Esse foi o meu período mais difícil à frente do Facebook. Eu acreditava no que estávamos fazendo, mas me senti sozinho. E, pior do que isso, a culpa era minha. Me perguntei se eu estava errado, se era um impostor, um garoto de 22 anos que não tinha ideia de como o mundo funcionava.

Agora, anos depois, compreendo que aquilo *é* como as coisas funcionam sem um senso de propósito maior. Cabe a nós criá-lo para continuar a avançar juntos.

Hoje quero falar sobre as três maneiras de se criar um mundo onde todos tenham um senso de propósito: participar de grandes projetos significativos em conjunto, redefinir a igualdade de oportunidades para que todos tenham a liberdade de seguir um propósito, e criar uma comunidade no mundo inteiro.

Primeiro, vamos falar de projetos grandes e significativos.

A nossa geração terá que lidar com dezenas de milhões de trabalhos substituídos por automatização, como carros e caminhões autônomos. Mas juntos nós temos potencial para fazer muito mais.

Todas as gerações têm suas obras determinantes. Mais de 300.000 pessoas trabalharam para enviar um homem para a lua, incluindo aquele zelador. Milhões de voluntários vacinaram crianças em todo o mundo contra a poliomielite. Outros milhões de pessoas criaram a Represa Hoover e outros grandes projetos.

Esses projetos não deram apenas um propósito para que as pessoas realizassem esses trabalhos, eles deram a todo o país uma ideia de orgulho de que somos capazes de fazer coisas incríveis.

Agora é a nossa vez de fazer coisas incríveis. Eu sei, provavelmente você está pensando: eu não sei construir uma represa, muito menos envolver milhões de pessoas em algum projeto.

Mas deixe-me contar um segredo: no começo, ninguém sabe. As ideias não surgem totalmente prontas. Elas só ficam mais claras depois que você as desenvolve. Você só precisa começar.

Se eu tivesse que entender tudo sobre como conectar as pessoas antes de começar, eu nunca teria iniciado o Facebook.

Os filmes e a cultura popular interpretam isso de forma errada. A ideia de um momento único de descoberta é uma mentira perigosa. Isso nos faz sentir inadequados, pois ainda não tivemos o nosso momento. Isso impede as pessoas com boas ideias de começar. Ah! Você sabe o que mais os filmes dizem de errado sobre a inovação? Ninguém escreve fórmulas matemáticas sobre um vidro. Isso não é nada.

É bom ser idealista. Mas é preciso estar preparado para ser mal interpretado. Qualquer pessoa que trabalhe em uma grande visão será chamada de louca, mesmo que ela tenha razão. Qualquer pessoa que trabalhe em um problema complexo será culpada de não entender plenamente o desafio, mesmo que seja impossível saber tudo de antemão. Qualquer pessoa que inicie algo será criticada por avançar rápido demais. Há sempre alguém querendo desanimá-la.

Em nossa sociedade, com frequência não fazemos coisas grandes porque temos tanto medo de cometer erros que ignoramos todas as coisas erradas hoje caso não façamos nada. A realidade é que tudo o que fazemos apresentará problemas no futuro. Mas isso não pode impedir que comecemos.

Então, o que estamos esperando? É hora das obras públicas determinantes da nossa geração. Que tal acabar com as alterações climáticas antes de destruirmos o planeta e incentivar milhões de pessoas a se envolverem na fabricação e instalação de painéis solares? Que tal curar todas as doenças e pedir a voluntários que permitam rastrear seus dados de saúde e compartilhar seus genomas? Nos dias de hoje gastamos 50 vezes mais tratando as pessoas que estão doentes do que gastamos para encontrar as curas para que as pessoas não fiquem doentes. Isso não faz sentido. Nós podemos mudar isso. Que tal modernizar a democracia para que todos possam votar online, e personalizar a educação para que todos possam aprender?

Essas conquistas estão ao nosso alcance. Vamos fazer de forma que todas as pessoas em nossa sociedade tenham uma função. Vamos fazer coisas grandes. Não apenas para criar progressos, mas para criar propósitos.

Encarar projetos grandes e significativos é, portanto, a primeira coisa que podemos fazer para construir um mundo no qual todos tenham um sentido de propósito.

A segunda é redefinir a igualdade de oportunidades para que todos tenham a liberdade necessária para perseguir seu propósito.

Os pais de muitos de nós tiveram empregos estáveis por toda sua carreira. Agora somos todos empreendedores, quer estejamos iniciando projetos ou buscando nosso papel. E isso é ótimo. É através da nossa cultura de empreendedorismo que criamos tanto progresso.

Mas uma cultura de empreendedorismo floresce quando é fácil experimentar muitas ideias novas. O Facebook não foi a primeira coisa que criei. Também criei jogos, sistemas de bate-papo, ferramentas de estudo e reprodutores de música. E nisso não estou sozinho. J. K. Rowling ouviu 12 rejeições antes de conseguir publicar Harry Potter. Até mesmo Beyoncé teve que compor centenas de músicas antes de chegar a Halo. Os maiores sucessos vêm de se ter a liberdade de falhar.

Mas hoje, temos um nível de desigualdade de renda que prejudica a todos. Quando não temos a liberdade de transformar nossas ideias em empreendimentos históricos, todos perdemos. Nossa sociedade hoje se orienta excessivamente pela premiação do sucesso. Estamos longe de fazer o bastante para que todos tenham muitas chances.

Temos que admitir isso. Há algo errado no nosso sistema se alguns de nós podem fazer tanto enquanto milhões de estudantes não têm condições de pagar seus empréstimos, quanto menos de começar um negócio.

Conheço muitos empreendedores, mas não conheço uma única pessoa que tenha desistido de começar um negócio porque talvez não fosse ganhar dinheiro suficiente. Mas conheço muitas pessoas que não perseguiram seus sonhos porque não tinham uma rede de segurança para o caso de falharem.

Nós todos sabemos que não é possível ter sucesso somente por termos um boa ideia ou por trabalharmos duramente. Ter sorte também é importante para se ter sucesso. Se eu tivesse tido que sustentar minha família enquanto amadurecia e não tivesse tido tempo para programar, e se eu não soubesse que estaria tudo bem se o Facebook não funcionasse, eu não estaria aqui hoje. Se formos sinceros, temos que admitir que tivemos muita sorte.

Cada geração expande sua própria definição de igualdade. As gerações passadas lutaram pelo voto e pelos direitos civis. Elas tiveram o New Deal de Roosevelt e a Grande Sociedade de Lyndon Johnson. Agora é nossa vez de definir um novo contrato social para a nossa geração.

Deveríamos ter uma sociedade capaz de medir o progresso não somente por indicadores econômicos como o PIB, mas também por quantos de nós têm um papel que consideram significativo. Deveríamos explorar ideias como a renda mínima universal, de maneira a oferecer a todos uma rede de segurança para tentar coisas novas. Mudamos de emprego muitas vezes, por isso precisamos de creches e planos de saúde que não estejam atrelados à empresa na qual trabalhamos. Todos nós cometemos erros. Por isso, precisamos de uma sociedade que ponha menos ênfase em encarcerar ou estigmatizar as pessoas. E à medida que a tecnologia evolui, precisamos nos concentrar mais na formação contínua por toda a vida.

E isto é um fato: oferecer a todos a oportunidade de perseguir seu propósito não vem de graça. As pessoas como eu precisam financiar isso. Muitos de vocês serão bem-sucedidos e deveriam fazer o mesmo.

É por isso que Priscilla e eu lançamos a Chan Zuckerberg Initiative e dedicamos nossa fortuna à promoção da igualdade de oportunidades. Esses são os valores da nossa geração. Nunca nos indagamos se deveríamos fazer isso. A única pergunta era quando.

A Geração Y já é uma das mais dedicadas à filantropia da história. Em um ano, três em cada quatro membros da Geração Y nos EUA já fizeram uma doação, e sete em cada dez arrecadaram dinheiro para beneficência.

Mas não se trata somente de dinheiro. Também é possível doar tempo. Garanto que se vocês dedicarem uma hora ou duas por semana… Basta isso para ajudar alguém a alcançar o seu próprio potencial.

Talvez vocês achem que isso é tempo demais. Eu costumava pensar assim. Quando Priscilla se formou em Harvard, ela se tornou professora. Antes de fazer trabalho de formação comigo, ela me disse que eu deveria dar aulas. Eu reclamei: “Mas estou meio ocupado. Eu dirijo essa empresa.” Mas ela insistiu. Por isso, dei um curso de empreendedorismo no Boys and Girls Club local.

Dei aulas sobre desenvolvimento e marketing de produtos, e meus alunos me ensinaram o que significa se sentir visado por causa da própria raça e ter um parente na cadeia. Compartilhei histórias da minha vida universitária, e eles compartilharam sua esperança de também ir à universidade um dia. Faz cinco anos que janto todos os meses com esses jovens. Um deles organizou o primeiro chá de bebê para mim e para Priscilla. Ano que vem eles vão começar a universidade. Todos eles. Os primeiros das respectivas famílias.

Todos nós podemos separar algum tempo para ajudar alguém. Vamos dar a todos a liberdade para perseguir o seu propósito — não somente porque isso é a coisa certa a fazer, mas também porque quando mais pessoas podem transformar seus sonhos em algo grandioso, isso é melhor para todos nós.

O propósito não vem só do trabalho. A terceira forma que temos de difundir propósito para todos é construindo uma comunidade. E quando nossa geração diz “todos”, estamos falando de todas as pessoas do mundo.

Levantem as mãos: quantos de vocês são de outro país? E quantos de vocês são amigos dessas pessoas? Agora, sim. Nós crescemos conectados.

Em uma pesquisa com membros da Geração Y ao redor do mundo sobre o que define nossa identidade, a resposta mais frequente não foi a nacionalidade, a religião ou a etnia, foi “cidadão do mundo”. Isso é muito importante.

Cada geração expande o círculo de pessoas que considera como “um de nós”. Para nós, isso engloba o mundo inteiro.

Compreendemos que o arco da história da humanidade pende para a união entre pessoas em números cada vez maiores — de tribos a cidades e nações — para alcançar coisas que não podemos sozinhos.

Entendemos que nossas melhores oportunidades são agora globais: podemos ser a geração que acabará com a pobreza e as doenças. Entendemos que nossos maiores desafios também precisam de respostas globais: nenhum país pode lutar sozinho contra as alterações climáticas ou prevenir pandemias. O progresso agora requer a união não apenas como cidades ou nações, mas também como uma comunidade global.

Mas vivemos em tempos instáveis. Há pessoas deixadas de lado pela globalização no mundo inteiro. É difícil se preocupar com pessoas de outros lugares se não nos sentimos bem com nossas vidas onde estamos. Isso cria uma pressão para nos voltarmos para nós mesmos.

Esse é o conflito do nosso tempo. As forças da liberdade, da abertura e da comunidade global contra as forças do autoritarismo, do isolacionismo e do nacionalismo. Forças para o fluxo de informações, comércio e imigração contra aqueles que gostariam de retardá-los. Essa não é uma batalha entre nações, é uma batalha entre ideias. Em todos os países há pessoas a favor da conexão global e pessoas boas contra ela.

E isso também não vai ser decidido na ONU. Isso vai acontecer a nível local, quando um número suficiente de nós sentirmos que temos um propósito e estabilidade em nossas próprias vidas a ponto de nos abrirmos e começarmos a nos importar com todas as outras pessoas. A melhora maneira de fazer isso é começar a construir comunidades locais agora mesmo.

Nossas comunidades nos proporcionam um sentido. Sejam nossas comunidades casas ou equipes esportivas, igrejas ou grupos musicais, elas nos dão a sensação de que fazemos parte de algo maior, que não estamos sozinhos; elas nos dão a força para expandir nossos horizontes.

É por isso que é tão impressionante que, por décadas, a participação em todos os tipos de grupos diminuiu em até um quarto. Isso representa um grande número de pessoas que agora precisam encontrar um propósito em outros lugares.

Mas eu sei que podemos reconstruir nossas comunidades e estabelecer comunidades novas, porque muitos de vocês já o fizeram.

Conheci Agnes Igoye, que está se formando hoje. Onde você está, Agnes? Ela passou a infância atravessando zonas de conflito em Uganda, e agora ela treina milhares de oficiais da lei para manter comunidades em segurança.

Conheci Kayla Oakley e Niha Jain, que também estão se formando hoje. Levantem-se. Kayla e Niha fundaram uma organização sem fins lucrativos que conecta pessoas que sofrem de doenças com pessoas de suas comunidades dispostas a ajudar.

Conheci David Razu Aznar, que está se formando na Kennedy School hoje. David, levante-se. Ele é um ex-vereador que liderou com sucesso a batalha para tornar a Cidade do México a primeira cidade da América Latina a aprovar a igualdade matrimonial, mesmo antes de San Francisco.

Essa é a minha história também. Um estudante em um dormitório, conectando uma comunidade de cada vez, e continuando a fazer isso até que um dia conectamos o mundo inteiro.

A mudança começa localmente. Mesmo as mudanças globais começam em uma escala menor, com pessoas como nós. Em nossa geração, o empenho para estarmos mais conectados e conseguirmos alcançar nossas maiores oportunidades se resume a isso: nossa capacidade de construir comunidades e criar um mundo onde cada pessoa tem um propósito.

Turma de 2017, vocês estão se formando em um mundo que precisa de propósito. Cabe a vocês criá-lo.

Mas talvez você esteja pensando: eu vou conseguir fazer isso?

Se lembram da história que contei sobre a turma para a qual dei aulas no Boys and Girls Club? Um dia, depois da aula, eu estava conversando com eles sobre a faculdade e um dos meus melhores alunos levantou a mão e disse que não tinha certeza se conseguiria entrar porque ele era um imigrante sem documentos. Ele não sabia se o deixariam entrar.

No ano passado, o levei para tomar café da manhã no dia do seu aniversário. Queria dar-lhe um presente, então perguntei o que ele queria e ele começou a falar sobre alunos em dificuldade e disse: “Sabe, eu gostaria mesmo de um livro sobre justiça social.”

Fiquei surpreso. Esse é um jovem que tem todos os motivos para ser cético. Ele nem sequer sabia se o país que ele chama de seu, o único que ele conhece, lhe permitiria realizar o sonho de ir para a faculdade. Mas ele não sentia pena de si mesmo. Ele nem estava pensando em si mesmo. Ele tem um senso de um propósito maior, e vai arrastar muitas pessoas com ele.

Isso diz muito sobre a nossa situação atual, e eu não posso dizer seu nome para não colocá-lo em risco. Mas se um aluno do último ano do ensino médio que não sabe o que pode fazer com seu futuro pode fazer algo para fazer o mundo avançar, então devemos ao mundo fazer a nossa parte também.

Antes de você atravessar esses portões pela última vez, enquanto estamos aqui em frente à Memorial Church, me lembro de uma oração, Mi Shebeirach, que faço sempre que me encontro em momentos de adversidade, que canto para minha filha pensando em seu futuro quando a coloco para dormir. É assim:
“Que a fonte de força que abençoou os que vieram antes de nós nos ajude a *encontrar a coragem* para tornar nossa vida uma bênção.”

Espero que vocês encontrem a coragem para tornar suas vidas uma bênção.

Parabéns, Turma de 2017! Boa sorte no mundo afora.

Mark Zuckerberg, Fundador e CEO do Facebook em cerimônia de formatura na Universidade de Harvard.