Introdução

Há muito o que ser aprendido. Há muito o que podemos extrair do que vemos, tocamos, ouvimos, e acima de tudo, sentimos. Nossa sabedoria vem dos retalhos que vamos colhendo ao longo de nossa evolução, que os leva a formar a colcha que somos. Esse espaço é para que eu possa compartilhar das luzes que formam o que Eu tenho sido!!!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O QUE ENSINA O ESPIRITISMO


Há criaturas que perguntam quais são as conquistas novas que devemos ao Espiritismo. Pelo fato de ele não ter dotado o mundo com uma nova indústria produtiva, como o vapor, concluem que ele nada produziu. A maior parte dos que fazem tal pergunta, não se tendo dado ao trabalho de estudá-lo, só conhecem o Espiritismo de fantasia, criado para as necessidades da crítica, e que nada tem de comum com o Espiritismo sério. Não é, pois, de admirar que perguntem qual pode ser o seu lado útil e prático. Teriam tido que buscá-lo em sua fonte, e não nas caricaturas que dele fizeram os que só têm interesse em denegri-lo.

Numa outra ordem de ideias, alguns acham, ao contrário, a marcha do Espiritismo muito lenta para o seu gosto. Admiram-se que ele não tenha ainda sondado todos os mistérios da Natureza, nem abordado todas as questões que parecem ser de sua alçada; gostariam de vê-lo diariamente ensinar coisas novas, ou enriquecer-se com alguma descoberta. Como ele ainda não resolveu a questão da origem dos seres, do princípio e do fim de todas as coisas, da essência divina e de algumas outras do mesmo porte, concluem que não saiu do á-bê-cê; que ainda não entrou na verdadeira via filosófica e que se arrasta nos lugares-comuns, porque prega incessantemente a humildade e a caridade. Dizem eles: “Até hoje ele nada de novo nos ensinou, porque a reencarnação, a negação das penas eternas, a imortalidade da alma, a gradação através dos períodos da vitalidade intelectual, o perispírito, não são descobertas espíritas propriamente ditas; então é preciso caminhar para descobertas mais verdadeiras e mais sólidas.”

A tal respeito julgamos que devemos apresentar algumas observações, que também não serão novidades, mas há coisas que devem ser repetidas sob diversas formas.

É verdade que o Espiritismo nada inventou de tudo isso, pois não há verdadeiras verdades senão aquelas que são eternas e que, por isto mesmo, devem ter germinado em todas as épocas. Mas não é alguma coisa havê-las tirado, senão do nada, ao menos do esquecimento; de um germe ter feito uma planta vivaz; de uma ideia individual, perdida na noite dos tempos, ou abafada pelos preconceitos, ter feito uma crença geral; ter provado o que estava em estado de hipótese; ter demonstrado a existência de uma lei no que parecia excepcional e fortuito; de uma teoria vaga ter feito uma coisa prática; de uma ideia improdutiva ter tirado aplicações úteis? Nada é mais verdadeiro que o provérbio: “Não há nada de novo sob o sol”, e até mesmo essa verdade não é nova. Assim, não há uma descoberta da qual não se encontrem vestígios e o princípio em algum lugar. Por conta disto, Copérnico não teria o mérito de seu sistema, porque o movimento da Terra tinha sido suspeitado antes da era cristã. Era uma coisa tão simples, entretanto, era preciso encontrá-la. A história do ovo de Colombo será sempre uma eterna verdade.

Além disso, é incontestável que o Espiritismo ainda tem muito a nos ensinar. É o que não temos cessado de repetir, pois jamais pretendemos que ele tenha dito a última palavra. No entanto, considerando-se que ainda há o que fazer, segue-se que ele não tenha ainda saído do á-bê-cê? Seu á-bê-cê foram as mesas girantes, e a partir de então, ao que nos parece, ele tem dado alguns passos; parece-nos mesmo que tais passos foram grandes em alguns anos, se o compararmos às outras ciências que levaram séculos para chegar ao ponto em que estão. Nenhuma chegou ao apogeu num primeiro impulso; elas avançam, não pela vontade dos homens, mas à medida que as circunstâncias as põem no caminho de novas descobertas. Ora, ninguém tem o poder de comandar essas circunstâncias, e a prova é que todas as vezes que uma ideia é prematura, ela aborta, para reaparecer mais tarde, em tempo oportuno.

Mas em falta de novas descobertas, os homens de ciência nada terão que fazer? A Química não será mais a Química se diariamente não descobrir novos corpos? Os astrônomos serão condenados a cruzar os braços por não encontrarem novos planetas? E assim em todos os outros ramos das Ciências e da indústria. Antes de procurar coisas novas, não se tem que fazer aplicação daquilo que se sabe? É precisamente para dar aos homens tempo de assimilar, aplicar e vulgarizar o que sabem, que a Providência põe em compasso de espera a marcha para a frente. Aí está a História para nos mostrar que as Ciências não seguem uma marcha ascendente contínua, pelo menos ostensivamente. Os grandes movimentos que revolucionam uma ideia só se operam em intervalos mais ou menos distanciados. Não há, portanto, estagnação, mas elaboração, aplicação e frutificação daquilo que se sabe, o que sempre é progresso.

Poderia o Espírito humano absorver incessantemente novas ideias? A própria Terra não necessita de um tempo de repouso antes de reproduzir? Que diriam de um professor que diariamente ensinasse novas regras aos seus alunos, sem lhes dar tempo para se exercitarem nas que aprenderam, de com elas se identificarem e de aplicá-las? Então Deus seria menos previdente e menos hábil que um professor?

Em todas as coisas, as ideias novas devem encaixar-se nas ideias adquiridas. Se estas não estão suficientemente elaboradas e consolidadas no cérebro; se o espírito não as assimilou, aquelas que aí quisermos implantar não criarão raízes. Estaremos semeando no vazio.

Dá-se o mesmo em relação ao Espiritismo. Os adeptos de tal modo aproveitaram o que ele até hoje ensinou, que nada mais tenham a fazer? São de tal modo caridosos, desprovidos de orgulho, desinteressados, benevolentes para os seus semelhantes; moderaram tanto as suas paixões, abjuraram o ódio, a inveja e o ciúme; enfim são tão perfeitos que de agora em diante seja supérfluo pregar-lhes a caridade, a humildade, a abnegação, numa palavra, a moral? Essa pretensão, por si só, provaria quanto ainda necessitam dessas lições elementares, que alguns consideram fastidiosas e pueris. É, entretanto, somente com o auxílio dessas instruções, se as aproveitarem, que poderão elevar-se bastante para se tornarem dignos de receber um ensinamento superior.

O Espiritismo tem como objetivo a regeneração da Humanidade: isto é um fato constatado. Ora, não podendo essa regeneração operar-se senão pelo progresso moral, daí resulta que seu objetivo essencial, providencial, é o melhoramento de cada um. Os mistérios que ele nos pode revelar são o acessório. Porque ele nos abriu o santuário de todos os conhecimentos, não estaríamos mais adiantados para o nosso estado futuro, se não fôssemos melhores. Para admitir-nos ao banquete da suprema felicidade, Deus não pergunta o que sabemos nem o que possuímos, mas o que valemos e o bem que fizemos. É, pois, no seu melhoramento individual que todo espírita sincero deve trabalhar, antes de tudo. Só aquele que dominou suas más inclinações realmente tirou proveito do Espiritismo e receberá a sua recompensa. É por isto que os bons Espíritos, por ordem de Deus, multiplicam suas instruções e as repetem à saciedade; só um orgulho insensato pode dizer: Não preciso de mais nada. Só Deus sabe quando elas serão inúteis e só a ele cabe dirigir o ensino de seus mensageiros e de adequá-lo ao nosso adiantamento.


Vejamos, entretanto, se fora do ensinamento puramente moral os resultados do Espiritismo são tão estéreis quanto pretendem alguns.

1.º ─ Inicialmente ele dá, como sabem todos, a prova cabal da existência e da imortalidade da alma. É verdade que não é uma descoberta, mas é por falta de provas sobre este ponto que há tantos incrédulos ou indiferentes quanto ao futuro; é provando o que não passava de teoria, que ele triunfa sobre o materialismo e evita as funestas consequências deste sobre a Sociedade. Tendo transformado em certeza a dúvida sobre o futuro, é toda uma revolução nas ideias, cujas consequências são incalculáveis. Se a isto se limitassem os resultados das manifestações, esses resultados seriam imensos.

2.º ─ Pela firme crença que desenvolve, ele exerce uma ação poderosa sobre o moral do homem; leva-o ao bem, consola-o nas aflições, dá-lhe força e coragem nas provações da vida e o desvia do pensamento do suicídio.

3.º ─ Retifica todas as ideias falsas que se tivessem feito do futuro da alma, do o Céu, do inferno, das penas e das recompensas; destrói radicalmente, pela irresistível lógica dos fatos, os dogmas das penas eternas e dos demônios; numa palavra, desvela-nos a vida futura e no-la mostra racional e conforme à justiça de Deus. É ainda uma coisa de muito valor.

4.º ─ Dá a conhecer o que se passa no momento da morte. Esse fenômeno, até hoje insondável, não mais tem mistérios; as menores particularidades dessa passagem tão temida são hoje conhecidas. Ora, como todo mundo morre, tal conhecimento interessa a todo mundo.

5.º ─ Pela lei da pluralidade das existências, abre um novo campo à Filosofia; o homem sabe de onde vem, para onde vai, com que objetivo está na Terra. Explica a causa de todas as misérias humanas, de todas as desigualdades sociais; dá as próprias leis da Natureza como base dos princípios de solidariedade universal, de fraternidade, de igualdade e de liberdade, que se assentavam apenas na teoria. Enfim, lança luz sobre as questões mais árduas da Metafísica, da Psicologia e da Moral.

6.º ─ Pela teoria dos fluidos perispirituais, dá a conhecer o mecanismo das sensações e das percepções da alma; explica os fenômenos da dupla vista, da visão à distância, do sonambulismo, do êxtase, dos sonhos, das visões, das aparições, etc.; abre um novo campo à Fisiologia e à Patologia.

7.º ─ Provando as relações existentes entre os mundos corporal e espiritual, mostra neste último uma das forças ativas da Natureza, um poder inteligente, e revela a razão de uma porção de efeitos atribuídos a causas sobrenaturais que alimentaram a maioria das ideias supersticiosas.

8.º ─ Revelando o fato das obsessões, faz conhecer a causa, até aqui desconhecida, de numerosas afecções sobre as quais a Ciência se havia equivocado em detrimento dos doentes, e dá os meios de curá-los.

9.º ─ Dando-nos a conhecer as verdadeiras condições da prece e seu modo de ação; revelando-nos a influência recíproca dos Espíritos encarnados e desencarnados, ensina-nos o poder do homem sobre os Espíritos imperfeitos para moralizá-los e arrancá-los aos sofrimentos inerentes à sua inferioridade.

10.º ─ Dando a conhecer a magnetização espiritual, que era desconhecida, abre ao magnetismo um novo caminho e lhe traz um novo e poderoso elemento de cura.

O mérito de uma invenção não está na descoberta de um princípio, quase sempre anteriormente conhecido, mas na aplicação desse princípio. A reencarnação, sem dúvida, não é uma ideia nova, tanto quanto o perispírito, descrito por São Paulo sob o nome de corpo espiritual, nem mesmo a comunicação com os Espíritos. O Espiritismo, que não se gaba de haver descoberto a Natureza, procura cuidadosamente todos os traços que pode encontrar, da anterioridade de suas ideias, e quando os encontra, apressa-se em proclamá-los, como prova em apoio ao que propõe. Aqueles, pois, que invocam essa anterioridade visando depreciar o que ele faz, vão contra o seu objetivo, e agem incorretamente, pois isto poderia levantar a suspeita de uma ideia preconcebida.

A descoberta da reencarnação e do perispírito não pertence, pois, ao Espiritismo. É coisa sabida. Mas, até o aparecimento dele, que proveito a Ciência, a Moral, a Religião haviam tirado desses dois princípios, ignorados pelas massas, e mantidos em estado de letra morta? Ele não só os pôs à luz, os provou e fez reconhecer como leis da Natureza, mas os desenvolveu e faz frutificar; deles já fez saírem numerosos e fecundos resultados, sem os quais não se poderia compreender uma infinidade de coisas; diariamente nos leva a compreendermos coisas novas, e estamos longe de esgotar essa mina. Levando-se em conta que esses dois princípios eram conhecidos, por que ficaram tanto tempo improdutivos? Por que, durante tantos séculos, todas as filosofias se chocaram contra tantos problemas insolúveis? É que eram diamantes brutos, que deviam ser lapidados: é o que fez o Espiritismo. Ele abriu um novo caminho à Filosofia, ou melhor, criou uma nova Filosofia que diariamente conquista seu lugar no mundo. Então, estes são resultados de tal modo nulos que devamos acelerar a caminhada em busca de descobertas mais verdadeiras e mais sólidas?

Em resumo, um certo número de verdades fundamentais, esboçadas por alguns cérebros de escol, e conservadas, em sua maioria, como que em estado latente, uma vez que foram estudadas, elaboradas e provadas, de estéreis que eram, tornam-se uma mina fecunda, de onde saíram inúmeros princípios secundários e aplicações, e abriram um vasto campo à exploração, novos horizontes às Ciências, à Filosofia, à Moral, à Religião e à economia social.

Tais são, até hoje, as principais conquistas devidas ao Espiritismo, e não temos feito mais do que indicar os pontos culminantes. Supondo que devessem limitar-se a isto, já nos poderíamos dar por satisfeitos, e dizer que uma ciência nova, que dá tais resultados em menos de dez anos, não é acusada de nulidade, porque toca em todas as questões vitais da Humanidade e traz aos conhecimentos humanos um contingente que não se pode desdenhar. Até que apenas esses pontos tenham recebido todas as aplicações que lhes são susceptíveis, e que os homens os tenham aproveitado, ainda se passará muito tempo, e os espíritas que quiserem pô-los em prática para si próprios e para o bem de todos, não ficarão desocupados.

Esses pontos são outros tantos focos de onde irradiarão inumeráveis verdades secundárias que se trata de desenvolver e aplicar, o que se faz diariamente, porque diariamente se revelam fatos que levantam uma nova ponta do véu. O Espiritismo deu sucessivamente e em alguns anos todas as bases fundamentais do novo edifício. Cabe agora a seus adeptos pôr em prática esse material, antes de pedir materiais novos. Deus saberá bem lhos fornecer, quando tiverem completado sua tarefa.

Dizem que os espíritas só sabem o á-bê-cê do Espiritismo. Que seja. Para começar, então, aprendamos a soletrar esse alfabeto, o que não é problema de um dia, porque, mesmo reduzido tão somente a essas proporções, passará muito tempo antes que tenhamos esgotado todas as combinações e recolhido todos os frutos. Não restam mais fatos a explicar? Aliás, os espíritas não têm que ensinar esse alfabeto aos que o ignoram? Já lançaram eles a semente em toda parte onde poderiam fazêlo? Não resta mais incrédulos a converter, obsedados a curar, consolações a dar, lágrimas a enxugar? Temos razões para dizer que não há mais nada a fazer quando ainda não terminamos a tarefa, quando ainda restam tantas chagas a fechar? Aí estão nobres ocupações que vale a pena conhecer melhor e um pouco mais cedo que os outros.

Saibamos, pois, soletrar o nosso alfabeto antes de querer ler correntemente no grande livro da Natureza. Deus saberá bem no-lo abrir, à medida que avançarmos, mas não depende de nenhum mortal forçar sua vontade, antecipando o tempo para cada coisa. Se a árvore da Ciência é muito alta para que possamos atingi-la, esperemos para voar sobre ela que as nossas asas estejam crescidas e solidamente pregadas, para não termos a sorte de Ícaro. 

Allan Kardec, na Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos - Agosto de 1865



terça-feira, 17 de janeiro de 2017

CONTRA A INSENSATEZ

Um dos maiores desastres no caminho dos discípulos é a falsa compreensão com que iniciam o esforço na região superior, marchando em sentido inverso para os círculos da inferioridade. Dão, assim, a ideia de homens que partissem à procura de ouro, contentando-se, em seguida, com a lama do charco.

Semelhantes fracassos se fazem comuns, nos vários setores do pensamento religioso.

Observamos enfermos que se dirigem à espiritualidade elevada, alimentando nobres impulsos e tomados de preciosas intenções; conseguida a cura, porém, refletem na melhor maneira de aplicarem as vantagens obtidas na aquisição do dinheiro fácil. Alguns, depois de auxiliados por amigos das esferas sublimadas, em transcendentes questões da vida eterna, pretendem atribuir a esses mesmos benfeitores a função de policiais humanos, na pesquisa de objetivos menos dignos.

Numerosos aprendizes persistem nos trabalhos do bem; contudo, eis que aparecem horas menos favoráveis e se entregam, inertes, ao desalento, re-clamando prêmio aos minguados anos terrestres em que tentaram servir na lavoura do Mestre Divino e plenamente despreocupados dos períodos multimilenários em que temos sido servidos pelo Senhor.

Tais anomalias espirituais que perturbam consideravelmente o esforço dos discípulos procedem dos filtros venenosos compostos pelos pruridos de re-compensa.

Trabalhemos, pois, contra a expectativa de retribuição, a fim de que prossigamos na tarefa começada, em companhia da humildade, portadora de luz imperecível.

Francisco Cândido Xavier pelo espírito Emmanuel 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

CURIOSIDADE

O Livro dos Médiuns – Questão 31

Para proceder, no Espiritismo, como se faria com as ciências ordinárias, precisaria passar revista toda a série dos fenômenos que podem se produzir, começando pelos mais simples, e chegar sucessivamente aos mais complexos. Ora, é isso que não se pode fazer, pois seria impossível fazer-se um curso de Espiritismo experimental como se faz um curso de Física ou de Química. Nas ciências naturais opera-se sobre a matéria bruta, que se manipula à vontade, tendo-se quase sempre a certeza de poder regular os efeitos. No Espiritismo estamos tratando com inteligências que têm sua liberdade, e nos provam a cada instante que não estão submetidas aos nossos caprichos; é preciso então observar, esperar os resultados e colhê-los à passagem. Daí o declararmos abertamente que quem quer que se gabe de obtê-los à vontade não pode deixar de ser ignorante ou impostor. Daí vem que o VERDADEIRO Espiritismo jamais se dará em espetáculo, nem subirá ao tablado das feiras. Há mesmo qualquer coisa de ilógico em supor-se que Espíritos venham exibir-se e submeter-se a investigações, como objetos de curiosidade. Portanto, pode suceder que os fenômenos não se deem quando mais desejados sejam, ou que se apresentem numa ordem muito diversa da que se quereria. Acrescentemos mais que, para serem obtidos, precisa se faz a intervenção de pessoas dotadas de faculdades especiais e que estas faculdades variam ao infinito, de acordo com as aptidões dos indivíduos. Ora, sendo extremamente raro que a mesma pessoa tenha todas as aptidões, isso constitui uma nova dificuldade, porquanto mister seria ter-se sempre à mão uma coleção completa de médiuns, o que absolutamente não é possível.


O meio de se obviar a este inconveniente é muito simples: começar pela teoria; aí todos os fenômenos são passados em revista; são explicados, apreciados, pode-se compreender sobre sua possibilidade, conhecer as condições nas quais podem produzir-se e quais os obstáculos que se pode encontrar. Então, qualquer que seja a ordem em que se apresentem, nada terão que surpreenda. Este caminho ainda oferece outra vantagem: a de poupar uma imensidade de decepções àquele que queira operar por si mesmo. Precavido contra as dificuldades, ele saberá manter-se em guarda e evitar a conjuntura de adquirir a experiência à sua própria custa.

Ser-nos-ia difícil dizer o número de pessoas que, desde quando começamos a ocupar-nos com o Espiritismo, hão vindo ter conosco e quantas delas vimos que se conservaram indiferentes ou incrédulas diante dos fatos mais positivos e só posteriormente se convenceram, mediante uma explicação racional; quantas outras que se predispuseram à convicção, pelo raciocínio; quantas, enfim, que se persuadiram, sem nada nunca terem visto, unicamente porque haviam compreendido. Falamos, pois, por experiência e, assim, também, é por experiência que dizemos consistir o melhor método de ensino espírita em se dirigir, aquele que ensina, antes à razão do que aos olhos. Esse o método que seguimos em nossas lições e pelo qual somente temos que nos felicitar.

*________________*

A curiosidade, quando respeitável, é princípio da ciência, mas somente princípio. Sem trabalho perseverante, assemelhar-se-ia, decerto, ao primeiro passo de uma longa excursão, interrompida no limiar.
E observando-se que o progresso é obra de todos, é preciso que o seareiro da ação palmilhe a senda dos precursores para realizar o serviço que lhe compete.

Colombo descobre as terras do Novo Mundo, depois de anotar os apontamentos de Perestrelo.

Planté articula os acumuladores de eletricidade, sob a forma de energia química, mas toma por base a pilha de Volta.

Marconi, para alcançar o telégrafo sem fios, utiliza as experiências de Branly.

Pasteur demonstra definitivamente a origem microbiana das doenças infecciosas, precedido, porém, por Davaine e outros.

Para tudo isso, no entanto, não se imobilizam em poltronas de sonho, nem param à frente de esboços.

Lutam e sofrem, gastando fósforo e tempo.

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Por outro lado, é imprescindível reconhecer que a curiosidade, ante o deslumbramento, é qual semente de árvore destinada a bons frutos, conservada, porém, sob uma campânula de vidro.

Imaginemos um índio, habituado aos sons da inúbia e do boré, que aspirasse a conhecer melodias mais elevadas.

Apresentar-lhe, só por isso, uma partitura de Beethoven seria o mesmo que propor a filosofia de Spinoza a uma criança de berço.

Antecedendo a conquista, é imperioso que a educação lhe administre o solfejo na iniciação musical.

*

Não esperes, assim, que os Espíritos Angélicos venham ferir-nos o aprendizado. 

Quaisquer recursos demasiado transcendentes, que nos trouxessem, serviriam apenas como fatores de encantamento inútil, à maneira de fogos de artifício, tumultuando a emoção dos meninos necessitados da escola.

Da pedra ao micróbio, do micróbio ao verme, do verme ao homem e do homem à estrela, o Universo é todo um conjunto de soberbos fenômenos, desafiando-nos o conhecimento e a interpretação.

Também, na mediunidade, não aguardes concessões de pechincha.

Há, nos reinos do espírito, leis e princípios, novas revelações e novos mundos a conquistar.

Isso, entretanto, exige, antes de tudo, paciência e trabalho, responsabilidade e entendimento, atenção e suor.

Francisco Cândido Xavier pelo espírito Emmanuel no Livro Seara dos Médiuns.

Para fazer o download da apresentação utilizada no Curso de Educação Mediúnica do Centro Espírita Casimiro Cunha clicar A>Q>U>I>



A JANELA

Dois homens, seriamente doentes, ocupavam o mesmo quarto em um hospital.

Um deles ficava sentado em sua cama por uma hora todas as tardes para conseguir drenar o líquido de seus pulmões. Sua cama ficava próxima da única janela existente no quarto. O outro homem era obrigado a ficar deitado de bruços em sua cama por todo o tempo.

Eles conversavam muito. Falavam sobre suas mulheres e suas famílias, suas casas, seus empregos, seu envolvimento com o serviço militar, onde eles costumavam ir nas férias. E toda tarde quando o homem perto da janela podia sentar-se ele passava todo o tempo descrevendo ao seu companheiro todas as coisas que ele podia ver através da janela. O homem na outra cama começou a esperar por esse período onde seu mundo era ampliado e animado pelas descrições do companheiro.

Ele dizia que da janela dava pra ver um parque com um lago bem legal. Patos e cisnes brincavam na água enquanto as crianças navegavam seus pequenos barcos. Jovens namorados andavam de braços dados no meio das flores e estas possuiam todas as cores do arco-íris. Grandes e velhas árvores cheias de elegância na paisagem, e uma fina linha podia ser vista no ceu da cidade.

Quando o homem perto da janela fazia suas descrições, ele o fazia de modo primoroso e delicado, com detalhes e o outro homem fechava seus olhos e imaginava a cena pitoresca.

Dias e semanas passaram-se. Em uma manhã a enfermeira do dia chegou trazendo água para o banho dos dois homens mas achou um deles morto. O homem que ficava perto da janela morrera pacificamente durante o seu sono à noite. Ela estava entristecida e chamou os atendentes do hospital para levarem o corpo embora.

Assim que julgou conveniente, o outro homem pediu à enfermeira que mudasse sua cama para perto da janela. A enfermeira ficou feliz em poder fazer esse favor para o homem e depois de verificar que ele estava confortável deixou-o sozinho no quarto.

Vagarosamente, pacientemente, ele se apoiou em seu cotovelo para conseguir olhar pela primeira vez pela janela. Finalmente, ele poderia ver tudo por si mesmo. Ele se esticou ao máximo, lutando contra a dor para poder olhar através da janela e quando conseguiu fazê-lo deparou-se com um muro todo branco. Ele então perguntou à enfermeira o que teria levado seu companheiro a descrever-lhe coisas tão belas, todos os dias se pela janela só dava pra ver um muro branco?

A enfermeira respondeu que aquele homem era cego e não poderia ver nada mesmo que quisesse.

Talvez ele só estivesse pensando em distraí-lo e alegrá-lo um pouco mais com suas histórias.

Como atirar vacas no precipício - Parábolas para ler, pensa, refletir, motivar e emocionar - Organização de Alzira Castilho

domingo, 15 de janeiro de 2017

ACOLHIMENTO DOUTRINÁRIO



Dentre as várias significações que o dicionário Aurélio, reserva à palavra “acolhimento” destacamos: ato ou efeito de acolher; recepção; atenção; consideração; refúgio, agasalho, abrigo.

Buscando ilustração para os sinônimos apresentados, nos deparamos com o Cristo desse orbe, Jesus, nos ensinando através de exemplos:

- Jesus acolhe João Batista e seu batismo de arrependimento para demonstrar o quanto é justo (Mc 1, 1-9; Mt 3, 1-15; Lc 3, 1-21 e Jo 1, 19-28);

- recepciona Nicodemos, autoridade entre os judeus e lhe explica sobre a importância da renovação e do renascimento, revelando o quanto era Mestre (Jo 3, 1-12);

- presta atenção aos gritos do cego moribundo que recobra a visão pela fé, demonstrando que as curas físicas e morais iniciam-se em nós (Mt 20, 29-34; Mc 10, 46-52 e Lc 18, 35-43);

- considerou a fé ativa e confiante da mulher cananeia que rogava pela filha doente, depois curada, demonstrando que a fé independe dos formalismos humanos (Mt 15, 21-28 e Mc 7, 24-30);

- deu refúgio à mulher que era perseguida sobre a acusação de adultério, demonstrando que não se deve atirar a primeira pedra (Jo 8, 1-11);

- agasalha, aquecendo com amor, a mulher dita como pecadora e que lhe lava os pés com perfume e lágrimas, enxugando-os depois com os cabelos, demonstrando que há verdades que devem ser consideradas por trás das aparências (Mt 26, 6-13; Mc 14, 3-9; Lc 7, 36-50);

- abriga carinhosamente os discípulos que se encaminhavam tristes para Emaús, demonstrando que às vezes é necessário reforçamos os ensinamentos (Lc 24, 13-35).

Queremos e podemos aprender com Jesus. O aprendizado com esse Mestre inigualável passa pelo exercício, pela aplicabilidade à vida cotidiana dos ensinamentos reflexionados.

Por isso, Querida Companheira e Querido Companheiro de caminhada existencial, idealizamos o ACOLHIMENTO DOUTRINÁRIO com intuito de fornecer elementos introdutórios a respeito do Espiritismo, confiantes de que não basta apenas semear, mas é necessário trabalharmos os terrenos às vezes inférteis tão somente por não terem sido cuidados.

Acolhemos você como você é, recepcionamos você como se apresenta, daremos atenção aos seus anseios, consideraremos as suas limitações, ofereceremos um refúgio para as almas sedentas de transcendência, agasalharemos os seus temores e tremores aquecendo-os com a luz de uma verdade insofismável, e lhe daremos abrigo no Centro Espírita Casimiro Cunha, ofertando-lhe o valor que verdadeiramente possuímos: nosso tempo.

Esperamos que à luz da Doutrina Espírita o Evangelho de Jesus lhe seja mais claro, consolador e esclarecedor.

Para baixar a apostila de estudo clique A.Q.U.I. 

Para baixar a apostila de textos complementares clique A.Q.U.I.



sábado, 14 de janeiro de 2017

ENTÃO REPROVAIS A ESMOLA?

Não; o que merece reprovação não é a esmola, mas a maneira por que habitualmente é dada. O homem de bem, que compreende a caridade de acordo com Jesus, vai ao encontro do desgraçado, sem esperar que este lhe estenda a mão.

A verdadeira caridade é sempre bondosa e benévola; está tanto no ato, como na maneira por que é praticada. Duplo valor tem um serviço prestado com delicadeza. Se o for com arrogância, pode ser que a necessidade obrigue quem o recebe a aceitá-lo, mas o seu coração pouco se comoverá.

Lembrai-vos também de que, aos olhos de Deus, a ostentação tira o mérito ao benefício. Disse Jesus: "Ignore a vossa mão esquerda o que a direita der.” Por essa forma, ele vos ensinou a não tisnardes a caridade com o orgulho.

Deve-se distinguir a esmola, propriamente dita, da beneficência. Nem sempre o mais necessitado é o que pede. O temor de uma humilhação detém o verdadeiro pobre, que muita vez sofre sem se queixar. A esse é que o homem verdadeiramente humano sabe ir procurar, sem ostentação.

Amai-vos uns aos outros, eis toda a lei, lei divina, mediante a qual governa Deus os mundos. O amor é a lei de atração para os seres vivos e organizados. A atração é a lei de amor para a matéria inorgânica.

Não vos esqueçais nunca que o Espírito, quaisquer que sejam o grau de seu adiantamento e a sua situação, como encarnado ou na erraticidade, está sempre colocado entre um superior, que o guia e aperfeiçoa, e um inferior, para com o qual tem que cumprir esses mesmos deveres. Sede, pois, caridosos, praticando não só a caridade que vos faz dar friamente o óbolo que tirais do bolso ao que vo-lo ousa pedir, mas a que vos leve ao encontro das misérias ocultas. Sede indulgentes com os defeitos dos vossos semelhantes. Em vez de votardes desprezo à ignorância e ao vício, instruí os ignorantes e moralizai os viciados. Sede brandos e benevolentes para com tudo o que vos seja inferior. Sede-o para com os seres mais ínfimos da criação e tereis obedecido à lei de Deus.

São Vicente de Paulo, na resposta à questão 888-a de 
O Livro dos Espíritos.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

HOLOCAUSTO BRASILEIRO - UM SOCO NO ESTÔMAGO

Terminada a leitura do livro de Daniela Arbex, Holocausto Brasileiro, a sensação que nos invade é de falta de ar, uma dor incômoda na chamada, vulgarmente, "boca do estômago". Foi preciso esperar para que a respiração atingisse novamente repetições sistêmicas e automatizadas, não mais coordenadas por mim. 

O livro é impactante. Lido de uma "vezada" só, vai nos apresentando um cenário que esperamos ao final uma citação a dizer que tudo não passa de uma ficção. Mas não é isso que ocorre. O livro é documental, relato de um momento que não se perde ao longo dos anos, um tempo que está logo ali, encontrando muitos de nós em suas entranhas.

Imaginar do que somos capazes, enquanto humanidade, para segregarmos os diferentes, os que não são considerados normais, os que incomodam, pode em muitas situações nos encaminhar ao descrédito com a nossa espécie, à desesperança. 

Felizmente, em contato com o Espiritismo, e tendo como roteiro os ensinamentos de Jesus, podemos no meio dessas trevas provocar para que nossa luz brilhe, tendo a certeza de que aqueles que foram humilhados, indignificados, feridos em suas mais íntimas aspirações encontrem espaço no futuro de uma vida melhor, e esperamos que a raiva, o rancor, o ressentimento não encontre residência no interior desses Espíritos. 

Aqueles que vergastaram, aqueles que podiam e deviam ter agindo de maneira diferente, os que se banalizaram na miserabilidade do trato com os asilados, encontrarão com certeza a lei que lhes permitirá rever o que fizeram, o que permitiram que fosse feito e serão devidamente recompensados por suas consciências.

60.000 pessoas mortas, 1853 cadáveres vendidos para faculdades de medicina, pessoas internadas por estarem tristes, outras por serem negras, pobres e não terem documentos, outros por serem alcoólatras, outros por demonstrarem orientação sexual considerada ofensiva, a homossexualidade, outros somente porque engravidaram sendo solteiras, outras porque perderam a virgindade e envergonhariam seus pais, e ainda aqueloutras que para lá eram encaminhadas a fim de que seus companheiros, seus maridos, pudessem viver suas loucuras com outras mulheres. Era esse o contingente pesquisado e tratado no livro pela autora. Fora da análise dela, deveriam ter casos de mediunidade, que com certeza foram identificados como loucura, esquizofrenia, psicoses agressivas. 


Qualquer semelhança como a maneira como temos ainda tratado grande parte daqueles que nos incomodam não pode ser descartada. Se não enviamos mais para manicômios os diferentes, lotamos as penitenciárias de negros e pobres, de albergados aguardando julgamento, alguns em prisões preventivas de anos, enaltecendo que a justiça não é para todos, mas para os que podem pagar por um operador do direito defender seus interesses. 

Se não mandamos mais pessoas para campos de concentrações institucionalizados, por outro lado criamos os condomínios de muros altos, sem interação com o mundo de fora, produzimos diariamente a segregação racial e social, sem falar nas condições de nossos hospitais públicos etc ... Mudamos pouco... alteramos as ferramentas para operacionalização de nossos preconceitos e convicções medíocres tão somente. Ou nos despertamos para o amor ao próximo como ferramenta de melhoramento de nós mesmos e do coletivo, ou muitos holocaustos ainda serão empreendidos e aí com a força da dor e do sofrimento talvez alguns de nós possa buscar dentro de si mesmo as motivações para alterarem a vivência de uma vida que tem na competição e no gozo dos prazeres seu alicerce, tratando a tristeza, a raiva e o medo como elementos externos que precisam ser destruídos, e não como emoções que precisam ser educadas.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A ESPERANÇA E AS SUAS CONSEQUÊNCIAS

Por Saul Leblon 
Para o Carta Maior

O que o golpe e o fatalismo conservador tentam nos explicar há oito meses é que a esperança que se alimenta de aspirações por mais justiça e democracia é um atentado ao equilíbrio das contas nacionais, como o perseguido agora pela PEC 55.

Enquanto a dissonância não retroceder, o ambiente político não desanuviará, os mercados não vão relaxar, a incerteza e a crise persistirão, advertem colunistas anexados a relatórios de bancos e vice-versa.

A esperança é disfuncional.

E, como ela, pleno emprego que a alimenta e a potencializa ao ampliar o poder de pressão dos historicamente privados dessa prerrogativa na vida nacional.

Até que a sociedade se convença de que um país é como uma empresa com dono, sendo a população a sua mão-de-obra, a colisão entre as expectativas afloradas nos últimos doze anos e a abrangência daquilo que os mercados estão determinados agora a tomar de volta continuará a arrastar o Brasil ao fundo.

Aqui e ali podem ocorrer cenas de barbárie e degola, mas não é propriamente um desastre.

É uma compressão deliberada para baixo.

Trata-se de uma operação para devolver ao seu lugar os que emergiram na década de ‘voluntarismo econômico’, como conceituou mais de uma vez a retirada de 30 milhões de brasileiros da miséria, e a ascensão de outros tantos na pirâmide da renda, o principal líder do conservadorismo tropical, Fernando Henrique Cardoso.

Não há improviso: os custos em libras de carne humana nessa hidráulica regressiva são calibrados matematicamente.

A intelectualidade liberal do PSDB tem perfeito domínio do cálculo, conhece as variáveis e as suas consequências.

Economistas de banco monitoram as comportas da imersão nacional no que se chama de ‘ajuste’ redentor.

São eles que alimentam a pauta do jornalismo de mercado com projeções e temas rapidamente adicionados à narrativa da vulgarização neoliberal.

O que se veicula é que até meados do segundo semestre de 2017 o desemprego atingirá a faixa dos 13% da população economicamente ativa.

A taxa atual é de 11,9% (dado do terceiro trimestre de 2016).

A legião de brasileiros e brasileiras demitidos já reúne 12,1 milhões de pessoas, sendo 33% maior do que o existente no mesmo período de 2015.

É o dobro do contingente computado há dois anos, no final de 2014.

A espiral acaba de  cravar um recorde: o Brasil tem hoje a maior massa de desempregados da série histórica iniciada em 2012.

Não se sabe quantos dessa diáspora terminarão a viagem em uma biqueira de droga, em uma penitenciária lotada ou alinhados ao PCC, ao FDN  etc

No mercado financeiro, porém, considera-se desejável que esse feito vá além.

Trabalha-se com uma projeção de 13 milhões de pessoas demitidas até o segundo semestre deste ano –quase um Portugal e um Uruguai juntos de desempregados.

A população ocupada cairia então para 88,5 milhões de pessoas em uma sociedade com mais e 200 milhões de habitantes.

Quando isso se consolidar, a principal linha de resistência à ganância dos mercados em qualquer sociedade, verdadeira ponte para o futuro em termos de inclusão social, reformas democráticas e progressistas, terá sido aplastada da vida dos brasileiros.

Estamos falando do pleno emprego, esse anátema keynesiano esconjurado pelas  classes patronais de todo o planeta.

Meta obrigatória do Banco Central dos EUA, aqui ele foi construído em quatorze anos de governos do PT e sua demolição agora figura como o imperativo obrigatório de todo o arsenal de reformas que o golpe preconiza para o país.

Não por acaso, os ‘efeitos colaterais’ do desmonte são naturalizados na mídia como um custo palatável face às vantagens que introduz no coração da economia.

Quais?

Aquelas em que o Estado, o Parlamento, as leis e regras de mediação em geral voltam a assegurar a reprodução da riqueza existente, sem contestações estruturais à repartição social do excedente.

Uma guarnição inédita de providências já tomadas e outras em curso cuidam de devolver os desamparados à vulnerabilidade que blinda a manutenção da nova ordem.

Submeter um mercado de trabalho em frangalhos à supremacia do negociado sobre o legislado é um exemplo desse arsenal.

A terceirização geral, outro.

A desproteção ao valor real do salário mínimo insere-se na mesma matriz.

Dela fazem parte também as novas dificuldades de acesso e de manutenção do valor das pensões e aposentadorias  --ademais do achatamento de recursos destinados à universalização de direitos sociais, como a saúde e a escola pública.

Em síntese: de um lado, joga-se a carga ao mar.

De outro, enxuga-se  o acervo de boias e salva-vidas disponíveis.

A recessão embutida nessa travessia é um custo brando para quem pode manter o capital ocioso em regime de engorda assistida, a juros de 13,75% ao ano.

Posta de joelhos a massa pobre e assalariada, o resto escorre por gravidade.

Ao ataque maciço e abusado aos direitos inscritos na Carta de 88 segue-se o assalto e a alienação de patrimônio público indispensável ao comando soberano do desenvolvimento.

O que se acalenta é algo de dimensões ciclópicas.

O saldo final do arrasto que esse processo para o fundo acarretará no mercado informal de trabalho, por exemplo, no universo dos ‘conta-próprias’, dos que vivem de bicos, dos que se defendem em diárias e dos que nada tem a defende-los, exceto o piso da exploração fixado pelo salário mínimo, é imponderável.

Mas não é um tsunami genuinamente verde-amarelo.

O que se passa no  Brasil, na verdade, é a tentativa de engatar o país ao comboio de um capitalismo global em retrocesso acelerado rumo ao ventre selvagem do sistema, nos primórdios dos séculos XVIII e XIX.

Mais que negar novos direitos, a desordem neoliberal --sem forças de ruptura para sobrepuja-la, acelera a des-emancipação e o desamparo do mundo do trabalho em todas as latitudes.

É disso que trata o mais recente filme de Ken Loach, por exemplo, que acaba de estrear no Brasil.

‘Eu, Daniel Blake’ conta a via crucis de um carpinteiro impossibilitado de trabalhar após um ataque cardíaco.

O infortúnio coloca-o diante do desmonte do Estado do Bem-Estar Social inglês, um dos mais avançados do mundo até Thatcher, substituído agora por um labirinto cuja finalidade é exaurir os desamparados para abandona-los à própria sorte.

Em todo o mundo capitalista o Estado emite o mesmo aviso.

O tempo em que o destino de cada um dizia respeito ao interesse de todos se esgotou.

A desumanização do Estado brasileiro é parte dessa debandada, abortada depois dos anos 90 por quatro derrotas sucessivas do PSDB para frentes progressistas lideradas pelo PT.

É hora de recuperar o tempo perdido.

É tempo de murici, que cada um cuide de si’, sugere o ministro da Saúde, por exemplo, emulando o coronel Tamarindo na debandada das tropas republicanas em Canudos (1896-1897).

Visto pela lente desfocada do jornalismo oficialista o lema Tamarindo vai melhorar a eficiência da economia e ajusta-la ao padrão internacional.

À narrativa de gerencia de banco, sobre o desastre fiscal se a pobreza insistir em respirar, dispensa-se o tratamento respeitoso atribuído às verdades científicas.

O resto é populismo e corrupção.

Para resistir à lobotomia é necessário recusar os limites do raciocínio e os seus fundamentos.

Inclui-se aí transcender a disputa paroquial com tucanos e assemelhados para redesenhar a pauta da política brasileira, atualizando-a nas questões cruciais do nosso tempo.

Entre elas a defesa de valores e direitos universais, inseparáveis da luta por um desenvolvimento que seja também a audaciosa escolha por viver em um país de oportunidades convergentes, não de interesses radicalmente contrapostos.

Quem adiciona ao interesse particular a sua dimensão pública é a política, ora desqualificada pelos ‘gestores’ brancos e ricos que se fantasiam de gari no amanhecer e fecham a noite na Ferrari blindada.

Para haver resgate da esperança nesse chão mole é preciso assumir as suas consequências.

Não pode haver esperança num país governado pela taxa Selic definida pela banca.

Não pode haver esperança num país envenenado pelo monopólio de uma rede de televisão que interdita o debate e as alternativas do desenvolvimento.

Não pode haver esperança em um país onde a classe média recolhe 12% de imposto, enquanto os muito ricos recolhem apenas 7% aos fundos públicos.

Não pode haver esperança num país onde a plutocracia rentista se recusa a pagar uma alíquota mínima sobre operações financeiras para viabilizar a saúde pública.

Não pode haver esperança num país onde o sistema político transformou parlamento em um assembleia contra o povo a serviço do mercado.

Não se trata de negar os requisitos de previsibilidade econômica, fiscal e financeira, sem os quais dissipa-se o chão do investimento público e privado.

Mas, sim, de afirmar a prerrogativa das escolhas soberanas da sociedade na composição e finalidades do desenvolvimento.

‘Com a esperança entre os dentes’ é o título de um livro do marxista, pintor, ensaísta, roteirista inglês, John Berger, falecido na primeira segunda-feira deste ano (02/01/017)

É uma legenda interessante para o Brasil dos dias que correm.

O que Berger sempre disse de alguma forma, assim como Loach em seus filmes, é que diante da marreta da des-emacipação social em curso no capitalismo, o peso material das ideias assume renovada importância.

Longe de ser um escapismo idealista, trata-se de reconhecer o salto necessário na organização do discernimento coletivo para que a sociedade possa pensar o futuro longe dos critérios da régua opressora.

Não é um convite à pequena alegria dos édens isolados.

As chances alternativas só se completam na prática transformadora, quando a esperança é levada a provar que pertence ao mundo através da ação que devolve à sociedade o comando do seu destino.

Câmbio ajustado, poder de compra, consumo de massa, crédito, financiamento, taxa de juro civilizada incluem-se entre os ingredientes da difícil calibragem do desenvolvimento na vida de uma nação.

Mas a verdade escancarada na derrota progressista para o golpe de Agosto é que a macroeconomia não basta  --até porque ela será sempre um reflexo das contradições que estilhaçam a sociedade capitalista.

A crise econômica não se explica nem se resolve nela mesma.

Insistir nesse reducionismo, seja pela fé cega nos mercados, ou a confiança na sua indulgência com a justiça incremental, adia soluções e induz à repetição de equívocos.

Os riscos se equivalem: num extremo, descartar qualquer opção ao ajuste draconiano exigido pelos mercados; no outro, propugnar pactos com quem não os quer, sem ter a organização popular que os faça querer.

A fase alegre dos consensos sempre foi efêmera sob o capitalismo; hoje mais que nunca.

O filósofo húngaro István Mészàros chama a atenção para as consequências desastrosas de se subestimar a extensão de uma crise sistêmica inerente à supremacia rentista que solapa direitos e esmaga a dimensão pública da vida.

Ele sublinha o esgotamento histórico de projetos que ignorem ou minimizem a guerra social aberta decorrente da voracidade  financeira que invadiu o ambiente produtivo, social, psíquico e político do nosso tempo.

A coisificação que atribui o papel de sujeito às coisas –o dinheiro e o mercado entre elas—  e de coisa às pessoas tornou-se asfixiante.

A financeirização acentua os efeito da lente desfocada, sujeitando a sociedade a uma leitura suicida dos requisitos econômicos, sociais e ambientais à sobrevivência humana no século XXI.

A colonização dos partidos de esquerda pela película embaçante do neoliberalismo é uma das dimensões da tragédia.

O ponto a reter, adverte o filósofo, é que isso não é um acidente transitório na sala de comando do Estado ou na casa de força da democracia liberal.

A determinante do nosso tempo é que ‘a acumulação de capital não pode mais funcionar adequadamente no âmbito da economia produtiva’, explica Mészàros em síntese iluminadora.

A nova hegemonia rentista desembarcou para ficar com a sua bagagem de barbárie econômica, demônios políticos e dissimulações ideológicas.

Até que seja desautorizada politicamente, radicalizará e ao mesmo tempo renegará a dependência última do sistema em relação à verdadeira fonte do valor: a exploração do trabalho assalariado.

Deriva daí o pior dos mundos.

Esse que nos coage, de um lado, cuspindo desemprego estrutural e legiões de precariatos; e, de outro, regurgitando relações trabalhistas que perseguem uma espécie de conjunção do regime escravo com o da liberdade em pleno século XXI.

A sintonia do golpe com os ares do mundo se dá nesse moedor de carne humana acionado aqui para destruir o pleno emprego herdado do ciclo petista.

No ambiente global a moenda está alguns passos à frente.

Novas formas de exploração e de produção incluem jornadas flexíveis e terceirizadas para uma mão-de-obra estocada em seus próprios domicílios.

Descarnado de qualquer direito, nivelado à condição de matéria-prima inerte, o insumo humano será requisitado do depósito quando a demanda assim o exigir: o patrão pagará então e tão somente pelo seu tempo de uso.

Há 700 mil ‘insumos humanos’ desse tipo estocados atualmente no capitalismo britânico, cujos desdobramentos Ken Loach disseca com argúcia.

É essa bússola de eficiência que o golpe namora no Brasil.

Rejeita-la implica em devolver a transparência aos desafios brasileiros.

Com a esperança entre os dentes.

E as suas consequências desdobradas em um projeto de repactuação do desenvolvimento para 2018.